Carnaval & Commedia dell’arte

– Bem, as fantasias foram copiadas de um conjunto de estatuetas de porcelana que fazia parte da coleção de Eustace Beltane. Lorde Cronshaw era Arlequim, Beltane era Polichinelo, sua companheira Mrs. Mallaby era Pulcinela, o casal Davidson, Pierrô e Pierrete, e, naturalmente, Miss Courtenay era a Colombina. (Os Primeiros Casos de Poirot, Ed. Record/1989, pág. 9)

Harlequin and Pierrot, André Derain commedia dell’arte c.1924 Oil on canvas 175 x 175 cm

Para aproveitar o clima de carnaval que desfrutamos no Brasil neste momento, vamos falar de três personagens freqüentes nos salões: Pierrô, Colombina e Arlequim. As fantasias são conhecidas de quase todos: o Pierrô com suas grandes golas franzidas e pompons; o Arlequim com estampa de diamantes e seu gorro de pontas e guizos; e a Colombina com seu boné e saia curta, no meio dos dois. A representação do triângulo clássico, que no Brasil ganhou a releitura de Jorge Amado no romance “Dona Flor e Seus Dois Maridos”.

Segundo contam, Colombina é retratada como uma serva alegre, bonita, sedutora, inteligente e volúvel, par do Arlequim. O Arlequim também é um servo e talvez seja o precursor dos palhaços bufões, esperto, com uma aura sobrenatural, namorador. Pierrô, outro servo, é ingênuo, sentimental, o pai dos palhaços tristes e secretamente apaixonado pela Columbina.

A origem destes personagens é a Commedia dell’arte, que surgiu no século 16 na Itália e representava arquétipos sociais através de seus personagens e nas situações em que se metiam. As tramas envolviam casais enamorados, traições e intrigas. Várias outras personagens completam o elenco dessas histórias, improvisadas para adaptar as características de cada uma à trama: Pantaleão, Polichinelo, Scaramouche, Briguela, O Doutor, O Capitão, Os namorados…

A esta altura do campeonato muitos devem estar se perguntando: o que tudo isso tem a ver com Agatha Christie? Bem, embora não seja obrigatório conhecer as personagens da Commedia dell’arte, ter uma leve noção do que se trata pode ajudar na compreensão de pelo menos dois livros e duas personagens da autora: “O Misterioso Sr. Quin” (The Misteryous Mr. Quin, de 1930) é um livro com 12 contos, atípicos, estrelado pelo velho Sr. Satterthwaite . Os casos do Sr. Harley Quin têm uma atmosfera diferente dos outros livros.

O segundo livro é “Os Primeiros Casos de Poirot”, que na edição de banca da Editora Record, da década de 80, até trazia um pierrô na capa (não encontrei imagem na Internet, infelizmente…). O Sr. Satterthwaite e o Sr. Quin também estrelam um conto na coletânea “Os Treze Problemas” e outro em “Problem at Pollensa Bay & Other Stories“.

Um estudante de Literatura Inglesa de Oxford, especializada em Drama Renascentista, chega a fazer a ligação entre o nome do nosso detetive belga e o palhaço triste, num artigo em que estuda a origem do nome dos detetives mais famosos da história.

Suggestive names also appear in the work of the grande dame of detective fiction, Agatha Christie. One of her less famous characters is the subject of a book of short stories, The Mysterious Mr. Quinn. Harley Quinn, to give his full name, tends to appear unexpectedly, and help solve crimes, before disappearing again — his name links him with Harlequin, who in various sources is a devil from Dante’s Inferno, a spirit charged with revenging the dead, and a masked character from the Commedia del’Arte. Rather more subtle is Hercule Poirot, whose name contains elements of both “Hercules”, the classical hero, and “Pierrot”, the French clown – an interesting combination of heroism and buffoonery. The name reflects Christie’s practice of presenting Poirot alternately as a figure of fun and a stern emissary of justice. (Jem Bloomfield)

Para a música da semana, então, nada de antigas cantigas folclóricas inglesas desta vez: “Noite dos mascarados“, composição de Chico Buarque interpretada por Chico e Elis Regina, da trilha sonora do filme “Garota de Ipanema” (1967).

Crédito da ilustração: Harlequin and Pierrot, André Derain commedia dell’arte c.1924 Oil on canvas 175 x 175 cm

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5 pensamentos sobre “Carnaval & Commedia dell’arte

  1. O personagem Harley Quinn foi um dos mais misteriosos que já encontrei, era incrível ver como ele aparecia sempre quando revisitavam alguns crimes sem solução, e quando a vida de um inocente estava em risco. Mais um marcante personagem da saudosa Rainha do Crime.

  2. É verdade, Arthur. Acho inclusive que para cada detetive – ou conjunto de – Dame Agatha trazia aos leitores um clima diferente. Acabei de reler “O Inimigo Secreto” e isso fica bem claro nessa aventura deliciosa de Tommy e Tuppence, mais “brejeiro”, como se dizia no tempo de Dom João Canudo, e ao mesmo tempo com um suspense que dá medão.

    Por falar em medão, o Sr. Quin foi um que de fato me deixava na maior aflição – preciso reler, lá se vão uns 20 anos que o li. Mas tá na fila – na fila da ordem cronológica, como estou fazendo com minhas (re)leituras em 2008.

    Grande abraço carnavaleco e viajandão a todos.

  3. Arthur, o cara é sobrenatural! Os contos em que ele aparece têm um clima diferente mesmo…

    Jovem Tommy, clima é tudo! Como é que ela conseguia transmitir sensações nos livros é outro mistério.
    🙂

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