Descrições e impressões

O Homem do Terno Marrom, de 1924 - Capa do Circulo do livroNos tempos de Agatha Christie (epa… como falar em “tempos de Agatha Christie” se ela escreveu por 6 décadas ?), nem havia ainda a expressão “politicamente correto”. E é claro que seus tipos e personagens nem estavam preocupados com isso – cada um dava sua opinião pessoal sobre localidades, pessoas e costumes de acordo com o que achava e ‘acabou’. Muitas vezes, a descrição dos lugares era mais pitoresca que o próprio local em si. Daí não existir qualquer estranheza em relação ao trecho abaixo, retirado da narração da personagem Anne Beddingfield em seu “diário de viagem” no livro “O Homem do Terno Marrom”, escrito na década de 20:

A próposito, quero deixar bem claro que não vou discorrer sobre a África do Sul. Nada de cor local – sabemos bem o que significa: meia dúzia de palavras em itálico por página. É coisa que muito admiro, mas não posso imitar. Quando falamos das ilhas dos mares do sul, referimo-nos imediatamente a bêche-de-mer. Não sei o que quer dizer bêche-de-mer, nunca soube e provavelmente nunca saberei. Uma ou duas vezes, cheguei a ter uma idéia, mas estava errada. Na África do Sul, falamos de stoep, mas isso eu sei o que significa: é uma coisa redonda, que se coloca ao redor das casas e serve de sala de estar. Em várias outras partes do mundo, recebe outras denominações: varanda, piazza e ha-ha.

Existe também o mamão. Já tive ocasião de ler sobre esse fruto, por isso não tive dúvida quando o puseram na minha frente, na hora do café. A primeira impressão foi a de um melão passado. Experimentei-o novamente, depois dos esclarecimentos prestados pela garçonete holandesa, que me convenceu a comê-lo com umas gotas de limão. Tive prazer em travar conhecimento com o mamão. Associava-o vagamente à hula-hula. Mas, se não me engano, hula-hula é uma saia de palha usada pelas havaianas. Não, enganei-me outra vez; a saia é lava-lava.

Em contraposição à maneira tão diversa como nos exprimimos na Inglaterra, essas coisas são muito divertidas. Não posso deixar de imaginar o quando a nossa ilha, tão fria, se tornaria mais alegre se comêssemos bacon-bacon no desjejum ou então vestíssemos uma blusa-blusa para sair à rua.

(“O Homem do Terno Marrom”, 1924, edição do Círculo do Livro, tradução de Maria Antonieta Brantt Corrêa, pág 110-111)

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2 pensamentos sobre “Descrições e impressões

  1. Anne é uma das personagens mais divertidas de AC! Gosto muito dela e da Griselda, esposa do pastor de St. Mary Mead.

  2. Também gosto muito da minha xará! Quando reli o livro agora ri bastante.
    Ela é totalmente inconseqüente, a sensação que tenho é que Agatha se divertiu ao criá-la,
    =^.^=

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