Um refugiado belga

– Nós o procuramos com a recomendação expressa e o desejo de um grande homem de seu próprio país.
Comment? Meu velho amigo o Préfect
Lord Estair sacudiu a cabeça.
– Alguém mais alto que o Préfect. Alguém cuja palavra já foi lei na Bélgica… e que voltará a ser! E isso é um juramento da Inglaterra!
A mão de Poirot se levantou rapidamente numa saudação dramática. (Poirot Investiga, Ed. Record, pág. 108)

Brasão real das armas da BélgicaA Bélgica, na época em que o livro foi escrito, estava sob o domínio da Alemanha. O monarca subjugado pelos alemães foi Albert 1º, que subiu ao trono em 1909 após a morte do tio, o Rei Leopold 2º. Albert 1º comandou o Army Group Flanders, composto de divisões militares belgas, francesas e inglesas contra os alemães. O filho de Alberto 1º, Leopold 3º, reinou de 1934 a 1951.

Atualmente, o sistema político belga consiste em uma monarquia parlamentar constitucional. Yves Leterme foi empossado Primeiro-Ministro em 20 de março de 2008 e Albert 2º, filho de Leopold 3º, ocupa o trono desde 1993.

– Sim, é verdade – acrescentou Poirot, sério. – Conheço Mlle. Cynthia. Estou aqui graças à caridade da bondosa Sra. Inglethorp. – Em seguida, como eu o fitasse surpreso: – Sim, meu amigo, ela bondosamente estendeu sua hospitalidade a sete patrícios meus, que infelizmente são refugiados no seu país. Nós, os belgas, sempre nos lembraremos dela com gratidão. (O Misterioso Caso de Styles, Ed. Círculo do Livro, pág. 26)

Mapa da BélgicaAté a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) existiam duas regiões bem distintas no país: ao norte a região de Flandres (flamenga) com o neerlandês (holandês) como idioma predominante e, ao sul, a região Walloon (Valônia), francófona. Podemos deduzir que nosso pequeno detetive seja dessa região. Após as invasões germânicas, uma pequena região ao leste adotou o alemão como idioma predominante. Atualmente, um movimento originado ao norte reinvidica a separação de Flandres e Valônia.

A cidade de Antuérpia, na região de Flandres, é famosa por abrigar os melhores lapidadores de diamantes e já foi mencionada em livros de Agatha Christie que envolviam roubo dessas pedras preciosas. A capital, Bruxelas, está em quarto lugar na lista de capitais européias com maior número de crimes registrados, segundo a organização Urban Audit. Em Bruxelas os habitantes falam inglês, embora com forte sotaque – flamengo, francês ou alemão.

– Ele é um cavalheiro muito simpático, meu senhor. E de uma classe completamente diferente desses dois detetives londrinos, que vão por aí espiando tudo e fazendo perguntas. Eu, normalmente, não me dou bem com estrangeiros, mas compreendo que, de acordo com os jornais, esses corajosos belgas não são da espécie comum de estrangeiros, e certamente ele é um cavalheiro da mais alta educação. (O Misterioso Caso de Styles, Ed. Círculo do Livro, pág. 121)

Refugees from Belgium arrive in Dover, 1914Sobre o exílio de belgas nos países vizinhos, expulsos do próprio país pelos invasores alemães durante a Primeira Guerra Mundial, o jornal norte-americano The New York Times publicou uma notícia na época (a foto ao lado mostra a chegada de refugiados belgas a Dover, em 1914). Fiz uma tradução amadora da reportagem; se preferir ler no original, está disponível no formato PDF no site do jornal.

UMA NAÇÃO EM EXÍLIO
Aproximadamente 1 milhão de refugiados belgas na Inglaterra, França e Holanda

Londres, 19 de outubro – A população da Bélgica está se tornando, de forma constante, naquilo que um escritor francês chamou de “uma nação em exílio”. O peso desta tragédia está recaindo sobre a Grã-Bretanha, Holanda e França.

Entre 300 e 400 mil belgas cruzaram a fronteira da Holanda, e um número igual concentrou-se ao sul, na França, enquanto mais de 100 mil chegaram às praias inglesas e continuam a cruzar o Canal às centenas diariamente.

Enquanto o processo de seu eventual repatriamento ou a sua absorção por outros países aparece no horizonte como um dos maiores problemas na história moderna européia, a questão hoje são os cuidados com os exilados e a alimentação de milhões de pessoas que permanecem na Bélgica, cujas indústrias estão paralisadas. Um membro do British Relief Comitee, pronunciando-se hoje sobre a situação, disse:

“Este negócio apenas deveria ser o suficiente para demandar as energias do Governo e do país, mesmo se não temos uma guerra em nossas mãos.”

Oitocentos belgas dormiram no chão de edifícios públicos em Londres na noite passada. Muitos deles eram pessoas refinadas e, até sua partida de casa, acostumados a uma vida luxuosa.

A hospitalidade das pessoas de Folkestone e Dover está sendo exigida até o limite, enquanto a cidade costeira de Deal foi afogada sob as ondas de refugiados que chegam em galeras, barcos de pesca e veleiros, famintos e com os nervos abalados de terror e das privações por que passaram. Um comerciante inglês pilotou uma chalupa pelos desfiladeiros de Dover saindo de Ostend com quarenta pessoas a bordo. Eles passaram dois dias e duas noites a bordo da embarcação sem comida e num mar agitado.

As ruas e os parques de Londres estão repletos de oficiais e soldados belgas, alguns deles feridos. Outros foram separados de seus comandos e juntaram-se ao êxodo de refugiados. A missão diplomática belga emitiu instruções a todos os homens capazes para reunir-se ao exército. (The New York Times em 20 de outubro de 1914)

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