Dos seus e dos outros

Os fãs da Dama do Crime ficam sempre a se perguntar: será possível encontrar de fato um favorito entre tantos livros ? E a autora ? Ela também tinha os seus ? Veja trechos de sua autobiografia:

De todos os meus livros policiais, os dois que mais me satisfazem são “A Casa Torta” e “Punição para a Inocência”. Com grande surpresa minha, ao relê-los outro dia, achei que há mais um que me dá real satisfação: “A Mão Misteriosa”. É um grande teste reler o que escrevemos há dezessete ou dezoito anos. Nossos pontos de vista mudam. Alguns livros não resistem à passagem do tempo.

Uma moça italiana que uma vez me entrevistou (e me fez, devo dizer, perguntas bastante tolas) incluiu esta: “Já escreveu ou publicou algum livro que considere francamente ruim?” Repliquei com indignação que não. Nenhum livro, respondi, era exatamente o que desejaria que fosse, e jamais ficava totalmente satisfeita com meus livros, mas se achasse ruim um livro escrito por mim não permitiria que chegasse a ser publicado.

Todavia, penso que o fiz com “O Mistério do Trem Azul”. Sempre que o leio, acho-o cheio de lugares-comuns, clichês, e com um enredo desinteressante. Muita gente, lamento dizê-lo, gosta desse livro. Diz-se, porém, que os autores não são bons juizes de seus próprios trabalhos.

Como será triste quando não mais puder escrever! No entanto, não devo ser ambiciosa demais. Afinal de contas, continuar escrevendo aos setenta e cinco anos sempre é uma sorte. Deveríamos saber ficar satisfeitos e nos aposentar nessa idade. Mas fui tentada a continuar pelo fato de meu último livro publicado ter vendido melhor do que todos os outros até então: parecia uma tolice parar de escrever. Talvez agora deva marcar como limite de idade os oitenta anos.

A biografia também cita outras obras que a autora gostava quando jovem:

The prisoner of Zenda foi minha introdução ao romance, como fora também para muitas outras pessoas. Li-o mais de uma vez. Apaixonei-me profundamente – não por Rudolf Rassendyll, como seria de esperar, mas pelo verdadeiro rei, prisioneiro que suspirava na masmorra. Ansiava por socorrê-lo, salvá-lo, assegurar-lhe que eu – Flavia, é claro! – o amava, e não a Rudolf Rassendyll. Também li toda a obra de Júlio Verne em francês – Le voyage au centre de la terre foi, por muitos meses, meu livro favorito. Adorava o contraste entre o sobrinho prudente e o tio vaidoso. Qualquer livro de que realmente gostasse eu lia de novo, com meses de intervalo; depois de um ano, como era inconstante, escolhia outro livro predileto.

Também havia os livros de L. T. Meade, para moças, que desagradavam muito a minha mãe; achava que as moças neles descritas eram vulgares, e só pensavam em ser ricas e usar roupas elegantes. Secretamente, eu gostava bastante delas, sentindo-me culpada por meus gostos serem vulgares! Alguns dos livros de Henty eram-me lidos por minha mãe, embora ela se exasperasse ligeiramente com as descrições longas demais. Também me lia um livro chamado The last days of Bruce, do qual ambas gostávamos muito. Quanto a estudos, fui encarregada de ler um livro chamado Great events of history, e depois era interrogada acerca de cada capítulo. Era um texto muito bom. Nele aprendi grande parte dos acontecimentos que ocorreram na Europa e em outras partes do mundo, ligados à história dos reis da Inglaterra, desde o pequeno Artur. Como era agradável dizerem-nos firmemente que Fulano de Tal fora mau rei! Esse livro tinha uma espécie de dogmatismo bíblico! Aprendi as datas correspondentes aos reis da Inglaterra e os nomes de todas as esposas – informações que jamais me foram de grande utilidade.

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6 pensamentos sobre “Dos seus e dos outros

  1. Nós, leitores, sempre temos curiosidade em saber quais livros o nosso admirado autor prefere, mas sempre temos dúvidas em escolher os nossos favoritos…
    Então é fã de Agatha Crhistie?
    =)

  2. Seja bem-vinda, Su. Somos todos fãs desta grande autora, peque seu banquinho e achegue-se neste Mundo de Agatha Christie. Um abraço.

  3. Ah, eu estou lendo Trem Azul agora… Não é dos meus favoritos.

    No livro “O Mundo Misterioso de Agatha Christie”, de Richard Feynman, ele diz que Dickens era o autor favorito dela.

    Depois vou reler e localizar a informação.
    😉

    (Precio pegar na Autobiografia, agora que tenho em papel…)

  4. Salve, Tommy.
    Realmente sou um admirador das tramas da Agatha Christie.
    Já li a metade de seus livros, mais ou menos 45. E o meu preferido, até agora, é o “Cai o Pano”. Muito instigante e, em alguns momentos, até angustiante. Além de ter o impacto de ser o livro onde a dama do crime põe fim à vida de sua maior personagem.
    Tô te linkando aqui no meu.
    Volte sempre.
    Abraço

  5. Pingback: Livro – A mão misteriosa |

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