Dr. Crippen

– A personalidade de um criminoso, George, é uma questão interessante. Há muitos assassinos que são homens de grande encanto pessoal.
– Sempre ouvi dizer, senhor, que o Dr. Crippen era um homem de fala muito agradável. Mas mesmo assim fez picadinho da mulher. (O mistério do Trem Azul, Ed. Abril Cultural, pág. 202)

Dr CrippenHawley Harvey Crippen, que mais tarde tornou-se celebremente conhecido como Dr. Crippen, nasceu no estado de Michigan/EUA em 1862 e exercia as profissões de médico homeopata e dentista. Ele casou-se com a enfermeira Charlotte Bell enquanto era residente de medicina; tiveram um filho, Otto, que foi entregue aos pais de Crippen quando Charlotte morreu pouco tempo depois.

Sua segunda esposa Kunigunde Mackamotski nasceu no Brooklyn em 1873 e mudou seu nome para Cora Turner, mas preferia ser chamada pelo nome artístico Belle Elmore. Belle era cantora de teatro de revista em Nova Iorque e tinha 19 anos quando conheceram-se e se casaram em setembro de 1892; Crippen tinha 30 anos.

39 Hilldrop CrescentO casal Crippen mudou-se para Londres, na Inglaterra, em 1900. Após ocuparem várias casas, seu endereço final foi 39 Hilldrop Crescent, Camden Road, Holloway, London, que era espaçosa o bastante para sublocar e incrementar sua renda, já que o Dr. Crippen não tinha obtido qualificações o bastante para praticar medicina na Inglaterra, embora tivesse se formado na Universidade de Michigan e obtido seu M.D. no Hospital Homeopático de Cleveland.

O comportamento de Belle na Inglaterra eduardiana passou a incomodar Crippen, que foi demitido de seu emprego porque seus empregadores acreditavam que ele dedicava mais tempo às aulas, apresentações e festas da esposa do que ao trabalho.

Belle ElmoreSua queda na escala social atingiu Belle, que estava acostumada a usar seus atributos físicos para subir na vida desde os dezesseis anos. Seu gosto expensivo para vestidos cor-de-rosa e jóias, além de cartas de amantes e sua má reputação, foram usados pela defesa para atenuar a pena de Crippen durante o julgamento.

Quando o Dr. Crippen conseguiu emprego em outra empresa conheceu Ethel Clara la Neve, sua secretária de 18 anos nascida em Norfolk, na Inglaterra, em 1883.

Ethel la Neve

To Crippen, Ethel had everything Belle lacked – she was sweet, considerate, graceful, dulcet voiced, learned and a lady in all circumstances. Yet, he had to admit to himself, it wasn’t all Ethel’s demeanor that attracted him. Pens author Cullen, “(She) was no beauty, but she had the kind of face that made a married woman clutch her husband’s arm a little tighter when Ethel was around. Her mouth, which turned down at the corners, could be interpreted as either tragic, or as an invitation to sensuality. She had light brown hair, which she wore piled high on her head, a long, straight nose, grey eyes and a way of looking up intently into the face of her interlocutor when in conversation.” (Crime Library)

No último dia de janeiro de 1910 o casal Crippen deu uma festa em sua residência e desde então Belle nunca mais foi vista. Seu marido disse aos amigos e vizinhos que ela tinha voltado para os Estados Unidos com um amante. Mais tarde, informou ainda que Belle tinha falecido na California e sido cremada. Sua secretária Ethel mudou-se então para a casa do doutor em março do mesmo ano.

O porão de CrippenAs dúvidas sobre o que realmente teria acontecido com Belle só surgiram quando Ethel passou a usar as roupas e jóias de Belle. O Inspetor Chefe Walter Dew, da Scotland Yard, foi designado para investigar o caso. Apenas na quarta visita à casa é que encontraram os restos de uma mulher enterrados no porão, sob o piso de tijolo.

Belle foi dopada com um sedativo potente (hioscina), baleada com um revólver calibre 45 e esquartejada. Os ossos foram retirados de seu corpo assim como braços e pernas e queimados no forno. Os órgãos internos foram dissolvidos com ácido na banheira e sua cabeça foi jogada para fora do barco durante uma viagem à França, embrulhada numa sacola.

Crippen e Ethel disfarçadosQuando o corpo foi encontrado, Crippen e Ethel já eram foragidos. Eles tinham seguido para Bruxelas, na Bélgica, e preparavam-se para embarcar no navio Montrose, que faria o trajeto Antuérpia (Bélgica) – Quebec (Canadá). Crippen raspou o bigode, deixou de usar óculos e deixou crescer a barba. Ethel vesia-se com roupas de rapaz e ambos apresentavam-se como pai e filho.

O caso do corpo encontrado estava na capa de todos os jornais. Foi o capitão do Montrose, Henry George Kendall, quem desconfiou dos dois passageiros. Ele considerava-se um detetive amador e prestava muita atenção em detalhes. Kendall percebeu que o homem que se passava por pai tinha marca de óculos e achou estranho pai e filho passearem de mãos dadas pelo convés, além de desaparecer por trás dos botes, a salvo de olhares estranhos. O capitão então telegrafou às autoridades inglesas – o Canadá ainda estava sob o domínio britânico na época.

Not�cia no Weekly DispatchO Inspetor Dew embarcou em outro navio, o SS Laurentic, que era de uma classe mais rápida do que o Montrose, e chegou a Quebec em tempo de contatar a Polícia Montada canadense e prender Crippen e Ethel em 31 de julho de 1910. Foi a primeira vez na história forense que a comunicação sem fio foi utilizada na captura de um suspeito.

Se Crippen tivesse viajado na terceira classe o capitão não teria prestado atenção nele, e se tivesse ido diretamente para os Estados Unidos, por ser cidadão americano, talvez tivesse sido julgado em seu próprio país.

Um trecho da autobiografia do inspetor chefe confirma a fama de “amável” de Crippen.

I had landed on July 29 by the liner Laurentic, arriving two days before the Montrose, which was already well out in the Atlantic when we first suspected that Crippen was aboard, but which was a much slower vessel than the mail steamer Laurentic. Old Crippen took it quite well. He always was a bit of a philosopher, though he could not have helped being astounded to see me on board the boat. He was quite a likeable chap in his way. (Wikipedia)

Crippen e Ethel durante o julgamentoCrippen nunca confessou o crime e sempre alegou inocência. Ele foi julgado em Old Bailey; os advogados de acusação foram Mr. Muir, Mr. Travers Humphreys e Mr. Oddie. Na defesa atuaram Mr. Tobin, K.C., Mr. Huntly Jenkins e Mr. Roome. Seu julgamente durou cinco dias, entre 18 e 2 de outubro e o júri levou apenas 27 minutos de deliberação para apresentar suas condenações: culpado e condenado à forca.

Dr. Crippen foi enforcado no dia 23 de novembro de 1910 na prisão Pentonville, em Londres.

Segundo o site Titanic and Other White Star Line Ships, Ethel le Neve (que também foi julgada mas considerada inocente) mudou seu sobrenome para Nelson e migrou para o Canadá. Retornou à Inglaterra alguns anos mais tarde e casou-se com um contador chamado Stanley Smith, com quem teve um casal de filhos. Seu marido nunca soube a verdadeira história do passado de Ethel. Ela faleceu em 1967 com 85 anos.

O corpo de Crippen foi enterrado na prisão onde foi enforcado. As cartas que Ethel lhe escreveu enquanto aguardava o cumprimento da sentença e sua foto foram colocados em seu caixão, conforme ele expressou em seu último desejo. Um de seus parentes solicitou a exumação do corpo de Crippen para enterrá-lo no jazigo da família depois que o exame do DNA mitocondrial dos restos enterrados no porão resultou negativo, quando comparado ao material genético de sobrinhas de Cora/Belle. O pedido ainda está sendo estudado.

inspetor chefe Walter Dew, da Scotland YardEste foi o último caso do Inspetor-Chefe Walter Dew, que se aposentou aos 47 anos três semanas antes do enforcamento do Dr. Crippen. Dew participou também da caçada a outro assassino lendário, Jack o Estripador. O ex-inspetor passou a trabalhar como perito criminal na imprensa inglesa, opinando sobre casos famosos como o desaparecimento da escritora Agatha Christie, em 1926. Dew publicou sua autobiografia em 1938 com o título I Caught Crippen (“eu apanhei Crippen”).

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4 pensamentos sobre “Dr. Crippen

  1. Mas então, se o teste de DNA no corpo comparando com os das sobrinhas de Belle deu negativo, o corpo não era dela? Ele foi julgado pela morte dela, sendo que era outra? Chega a ser irônico…

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