Assassinato na Casa do Pastor

Edição de banca da Ed Record, paperback

Edição de banca da Ed Record

Sinopse da quarta capa: “Qualquer pessoa que matasse o Coronel Protheroe estaria prestando um grande serviço ao mundo.”

Estas palavras, pronunciadas incidentalmente pelo pastor Clement, viriam mais tarde demonstrar-se fatídicas: o Coronel Protheroe é assassinado algumas horas depois do comentário… e na casa do próprio pastor.
Entra então em cena um dos personagens mais cativantes da literatura mundial: a simpática e ativa miss Jane Marple, a “rainha de todas as velhinhas geniais deste mundo”.
Como em todo bom romance policial, o fio capaz de levar ao assassino é tênue. Ele pode conduzir o leitor a meras suposições que se mostram improváveis quando o desfecho surpreendente é revelado pela grande mestra do gênero, a genial Agatha Christie.

The Murder at the Vicarage (1929)
(Crime no vicariato, em Portugal)

Citações e referências
Referências à vida pessoal, humor e métodos de Miss Marple:

Cumprimentei-as e sentei-me entre Miss Marple e a Srta. Wetherby.
Miss Marple é uma senhora idosa de cabelos brancos, muito suave e simpática; a Srta. Wetherby é uma mistura de vinagre e rompantes. Das duas, Miss Marple é a mais perigosa. (pág. 14)

Miss Marple sempre vê tudo. A jardinagem é um bom disfarce e o hábito de observar passarinhos com binóculos de longo alcance sempre pode ser útil. (pág. 17)

Encontrei minha mulher e Miss Marple em conferência.
– Estávamos falando das várias possibilidades – disse Griselda. – Queria que a senhora resolvesse esse caso, Miss Marple, como resolveu o desaparecimento do pote de conserva de camarão da Srta. Wetherby. E tudo porque o pote fez a senhora lembrar-se de uma coisa completamente diferente: um saco de carvão.
– Você está rindo, minha filha – observou Miss Marple -, mas no final das contas é uma maneira muito lógica de chegar à verdade. É o que todo mundo chama de intuição, fazendo tanto espalhafato. Uma criança não pode fazer isso porque tem muito pouca experiência. Mas um adulto conhece a palavra porque já viu essa mesma palavra tantas vezes antes. Compreende o que quero dizer, Pastor?
– Sim – respondi devagar. – Acho que sim. Quer dizer que se uma coisa faz a senhora lembrar-se de outra… bem, é porque provavelmente é o mesmo tipo de coisa. (pág. 80-81)

Fiquei muito intrigado com o que exatamente Miss Marple queria conversar comigo. De todas as senhoras de minha congregação, eu a considerava decididamente a mais perspicaz. Não só vê e ouve tudo que acontece, mas tira as conclusões mais claras e apropriadas dos fatos que chegam até ela.
Se algum dia eu resolvesse iniciar uma carreira fraudulenta, é de Miss Marple que teria medo. (pág. 204)

Tivemos, então, o privilégio de ver exatamente o que Miss Marple quisera dizer a respeito da diferença entre a teoria e a prática. (…) Se quiserem ver pura raiva primitiva, observem um humanitário convicto quando perde a calma. (pág. 234)

Na verdade, Miss Marple é mesmo um encanto… (pág. 240)

Referências à vida em St. Mary Mead

Tinha acabado de trinchar uma carne cozida (extremamente dura, por sinal) e quando me sentei novamente comentei, num humor muito pouco apropriado para minhas vestimentas religiosas, que aquele que assassinasse o Coronel Protheroe estaria prestando um grande serviço ao mundo inteiro. (pág. 5)

Vários comentários chegaram aos meus ouvidos, provavelmente ditos de propósito.
“Lá está o pastor. Está muito pálido, não acha? Será que está metido nisso? Afinal de contas, foi lá na residência.” “Como pode dizer isso, Mary Adams? Ele estava visitando Henry Abbott nessa hora. Lá está Mary Hill. Bancando a importante, só porque trabalha lá. Silêncio, aí vem o coroner.”
O coroner era o Dr. Roberts, da cidade vizinha, Much Benham. (pág. 137) Coroner: magistrado encarregado de investigar casos de morte suspeita.

Raymond West gesticulou com o cigarro.
– Considero St. Mary Mead – disse como grande autoridade – um lago estagnado.
Olhou para nós, preparado para que contrariássemos sua declaração, mas para seu desagrado, creio, ninguém se mostrou aborrecido.
– Não é uma comparação muito boa, caro Raymond – disse Miss Marple, com vivacidade. – Não há nada que tenha mais vida, creio, que uma gota d’água de um lago estagnado debaixo do microscópio. (pág. 157-158 )

Em Saint Mary Mead a fonte segura é sempre a empregada de alguém. (pág. 194)

Referências a personagens recorrentes:

O nome da minha mulher é Griselda – um nome muito apropriado para a esposa de um pastor. Mas é só isso que é apropriado. Ela não tem a menor humildade. (…) É bonita de uma maneira perturbadora e completamente incapaz de levar qualquer coisa a sério. É incompetente em todos os sentidos e de difícil convivência. (pág. 6)

Haydock é bom homem, um sujeito grande, forte, com uma cara honesta, rugosa. (pág. 38 )

Tudo que posso dizer do Inspetor Slack é que nunca um homem trabalhou com mais afinco para contradizer seu nome. Era um homem moreno, irrequieto e cheio de energia, com olhos pretos fuzilantes. Tinha modos extremamente grosseiros e autoritários. (pág. 42) Slack significa frouxo; negligente; lerdo; relaxado.

O Coronel Melchett é um homenzinho elegante que tem o hábito de bufar súbita e inesperadamente. Tem cabelos vermelhos e olhos penetrantes de um azul vivo. (pág. 54)

Na porta da bilheteria esbarramos com um rapaz extremamente elegante, que reconheci ser o sobrinho de Miss Marple, acabando de chegar. Acho que é um rapaz que não gosta que esbarrem nele. O tipo que se orgulha de sua pose e de sua aparência de superioridade, e não há dúvida que um esbarro vulgar é prejudicial a qualquer espécie de pose. Perdeu o equilíbrio e deu um passo atrás. Pedi desculpas apressadamente e entramos. (…) Acenei para ele e virei-me. Raymond West já tinha ido embora. (pág. 143)

Não posso dizer que tenha grande admiração pelo Sr. Raymond West. Bem sei que é considerado um escritor brilhante, tendo ficado famoso como poeta. Seus poemas não têm letras maiúsculas, o que é, parece, a essência do modernismo. Seus romances são sobre pessoas desagradáveis vivendo vidas de incrível monotonia. (pág. 157)

Referências a outros autores:

– Aquele meu sobrinho está se divertindo muito com tudo isso – eu disse. – Passa todo o tempo procurando pegadas e cinzas de cigarro.
Haydock sorriu. – Que idade ele tem?
– Fez dezesseis anos. Nessa idade, não se leva tragédias a sério. É tudo como se fosse Sherlock Holmes e Arsène Lupin. (pág. 107) Sherlock Holmes, detetive ficcional criado pelo escritor inglês Sir Arthur Conan Doyle; Arsène Lupin, gentil gatuno criado pelo escritor francês Maurice Leblanc.

– Sim, ninguém que ela considerasse alguém… parece loucura, mas entende o que quero dizer? Podia ter sido alguém como um carteiro, leiteiro ou o entregador do açougueiro, alguém cuja presença fosse tão natural que nem se lembraria de mencionar.
– Você andou lendo G. K. Chesterton – eu disse. Lawrence não negou. (pág. 126) Gilbert Keith Chesterton (1873-1936), escritor inglês chamado “Príncipe do Paradoxo” e criador do detetive Padre Brown.

Referências curiosas:

Havia nela um quê de esposa de César; uma mulher calma, reservada, que ninguém suspeitaria de possuir sentimentos muito profundos. (pág. 23-25) Referência a Pompeia Sula, segunda mulher do imperador romano Julio Cesar, de quem ele se divorciou mesmo sem provas de que ela teria cometido adultério, justificando-se: ” À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”.

– Ele é muito esquisito. Nunca se sabe. Vive completamente mergulhado no passado; prefere mil vezes olhar uma velha faca nojenta de bronze tirada de um desses montes de terra do que a faca que Crippen usou para matar a mulher, caso tivesse oportunidade para tanto. (pág. 74-75) Hawley Harvey Crippen ou Dr. Crippen, acusado de envenenar e esquartejar sua esposa para casar-se com a amante Ethel La Neve, em 1910. V. post de 27 de maio de 2008.

Então me lembrei de uma coisa: tirei do bolso o vidrinho marrom que tinha encontrado no bosque e mostrei a ele, perguntando o que era.
– Hum – hesitou. – Parece ácido pícrico. Onde encontrou isso?
– Isso – respondi – é um segredo de Sherlock Holmes.
Sorriu.
– O que é ácido pícrico?
– Bem, é um explosivo.
– Sim, eu sei, mas tem outros usos, não tem?
Concordou com a cabeça.
– É usado como medicamento, em solução, para queimaduras. É excelente. (pág. 199) Também conhecido como trinitrofenol, é usado na fabricação de armamentos (granadas). Explode a 300ºC e é sensível a choques, tem a venda controlada pelo Ministério do Exército. É tóxico se inalado ou ingerido. Para tratamento de pequenas queimaduras em forma de pomada há o Ungüento Picrato de Butesin, por exemplo, que não é recomendado para grandes áreas ou uso continuado.

– Foi muita bondade sua ter deixado que eu viesse…. e muita bondade da minha querida Griselda… Raymond tem muita admiração por ela… sempre diz que é um perfeito quadro de Greuze… (pág. 204) Jean-Baptiste Greuze (1725-1805), pintor francês. Suas últimas obras escondiam um caráter sexual sob uma aparente fachada de inocência.

Dedicatória: To Rosalind

Lista de personagens: Miss Jane Marple
Também: Dennis e Griselda Clement, Rev. Leonard (Len) Clement, Miss Cram, Gladys (Gladdie), Miss Hartnell, Mr. Hawes, Dr. Haydock, Mrs. Lestrange, Mrs. Price Ridley, Anne e Lettice Protheroe, Lawrence Redding, Dr. Stone, Caroline Wetherby

Observação: As citações e respectivas páginas foram extraídas da edição brasileira de Assassinato na Casa do Pastor
Ed. Record
Tradução: Edna Jansen de Mello
Ano: 1987
Páginas: 240

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3 pensamentos sobre “Assassinato na Casa do Pastor

  1. Como estou lendo na ordem, estou ansioso por chegar neste que foi um dos primeiros que li de Agatha, mais de 20 anos atrás… Eu adorei na época. Mas ainda tenho que terminar Sócios no Crime e O Mistério dos Sete Relógios antes… (escrevendo em 12.08.2008). 🙂

  2. Após ler diversos livros da excelente escritora inglesa Agatha Christie, cheguei à conclusão de que Miss Marple é a melhor personagem criada por ela. Essa simpática e inteligente velhinha é, a meu ver, melhor do que Poirot, que nem sempre está de bom humor.

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