O que é romance policial – Sandra Reimão [2/3]

Capa do livro

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Continuação do post O que é romance policial – Sandra Reimão [1/3].

Vamos ver agora um pouco os textos que têm Poirot como protagonista e, especialmente, aqueles em que o Capitão Hastings também aparece, enquanto narrador. Hercule Poirot surge em “O Misterioso Caso Styles”, em 1920, e com ele surge também o Capitão Hastings, seu primeiro biógrafo.

Hastings, assim como Watson e o narrador anônimo das aventuras de Dupin, tornou-se narrador a pedidos. Como Dr. Watson, Capitão Hastings “tinha voltado da frente de batalha, em conseqüência de graves ferimentos”, e, ainda como Watson, depois da convalescença estava de licença e desocupado “já que não tinha parentes ou amigos” a quem visitar, e é nessas condições que Hastings reencontra Hercule Poirot, a quem já conhecera anteriormente na Bélgica. E se Watson encontra Holmes porque este procurava com quem partilhar seus aposentos, é só no segundo volume da dupla Poirot-Hastings que esses vão repartir as acomodações. Outra diferença Hastings-Watson é que se Watson era médico de profissão, Hastings alimentava o desejo de se tornar detetive.

Hastings, como Watson, é um narrador = personagem, o narrador com a visão “com”, aquele que sabe tanto quanto os personagens. E Hastings será o “pior” dos personagens, aquele que demora mais tempo para encontrar as explicações dos acontecimentos.

Hastings é ludibriado pelos demais personagens Contém spoiler –>(como, por exemplo, por Cinderela em “Assassinato no Campo de Golfe”)<– Fim do spoiler e o próprio Poirot às vezes o incumbe, sem que Hastings saiba, de divulgar falsas pistas e falsas interpretações, É importante notar que, nesse jogo de divulgação do falso, algumas vezes nós, leitores, somos ludibriados juntamente com Hastings, já que este é o porta-voz, o emissor da narrativa. Mas, muitas outras vezes, fica patente para o leitor que Hastings está sendo ludibriado e, assim, o leitor adianta-se e esse narrador-personagem, que é basicamente “aquém leitor-médio” em relação a sua capacidade intelectual.

A relação de Hastings com Poirot é basicamente uma relação de admiração e de inveja; entre Hastings e Poirot encontramos uma clássica relação do “ele é o que eu gostaria de ser”. O que de certa forma atua, faz dar vazão ao espaço das fantasias reprimidas de cada leitor, que, como todo ser humano, sempre sonha em envolver-se em atividades desafiantes: ser astronauta, investigador etc. Mas deixemos agora Hastings um pouco de lado, e vamos nos deter em Poirot enquanto detetive.

Poirot não é tão neutro emocionalmente com relação aos personagens das narrativas quanto já vimos ser Holmes; ele atenta mais para o que os indícios psicológicos de um personagem podem revelar em termos de sua personalidade, seu tipo de atuação etc., para assim melhor construir suas equações mentais.

Para esse vaidoso e refinado investigador belga, o trabalho de investigar é composto, assim como era para Holmes, tanto do trabalho de dedução mental, “as células cinzentas” quanto do trabalho empírico, reconstruir pistas etc. Só que Poirot valoriza e considera decisivo apenas o trabalho mental, como ele diz em “Assassinato no Campo de Golfe”: “o verdadeiro trabalho é feito aqui dentro. As pequenas células cinzas — sempre se lembre das células cinzas, meu amigo”.

Em vez de considerar um elogio a comparação com um mastim (freqüentemente aplicada a Holmes), Poirot considera esse papel ridículo e prefere trabalhar com as “células cinzentas”. Se em Poe temos um caso real reconstruído na criação literária, lentamente, na evolução do romance enigma, a criação literária vai-se “descolando” do real, e até mesmo do campo do verossímil, para enveredar na «esfera dos possíveis.

Recorre-se a sofisticadíssimos métodos de assassinar: venenos orientais desconhecidos pelos cientistas, armas pré-reguláveis etc. A inventividade do criminoso é tal que, como diz Chandler, requer “um conjunto de qualidades que não se encontram no mesmo cérebro”, chegando a parecer que a intenção única do assassino foi dificultar o trabalho de investigação e que cometeu o crime apenas “para fornecer um cadáver para o autor”.

O que é romance policial – Sandra Lúcia Reimão
Ed. Brasiliense, 1983
(Fora de catálogo)

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