Agatha e a dança

Aula de dança em Torquay. Agatha Christie é a do meio.

Aula de dança em Torquay. Agatha Christie é a do meio.

Da autobiografia de Agatha:

(…) tive aulas de dança, uma vez por semana, num local chamado grandiosamente As Salas do Ateneu, situado no andar acima da loja de doces. Devo ter começado a freqüentar as aulas de dança bastante jovem — com cinco ou seis anos, julgo — , porque recordo que a nursie ainda estava conosco e acompanhava-me até lá uma vez por semana. As crianças principiavam pelo aprendizado da polca. Começavam por bater o pé três vezes: direito, esquerdo, direito — esquerdo, direito, esquerdo — tumba, tumba, tumba — tumba, tumba, tumba. Devia ser desagradável para aqueles que estavam tomando chá na confeitaria que ficava abaixo! Voltando para casa, ficava ligeiramente incomodada porque Madge me dizia que não era assim que se dançava a polca. “Você escorrega com um pé, traz o outro para junto do primeiro e recomeça novamente com o primeiro”, dizia ela. Eu ficava muito desorientada, mas, aparentemente, a idéia da srta. Hickey, a professora de dança, era que deveríamos aprender o ritmo antes dos passos.

A srta. Hickey, recordo-me, era uma personagem assustadora, se bem que maravilhosa. Alta, um pouco gorda, usava seus cabelos grisalhos lindamente penteados à Pompadour, longas e esvoaçantes saias, e valsar com ela — o que só aconteceu, é claro, muito mais tarde — era uma experiência aterradora. Uma de suas alunas ajudava-a a ensinar, uma moça de aproximadamente dezoito anos, e ainda outra, de treze, chamada Aileen. Aileen era uma mocinha doce, trabalhava muito, e todas nós gostávamos dela. A mais velha, Helen, era levemente assustadora, e só dava importância às que dançavam bem.

A aula transcorria da seguinte maneira: eu começava a exercitar-me com o que chamávamos de “extensores”, para movimentar o peito e os braços. Esses “extensores” eram espécies de fitas elásticas azuis, com alças, que esticávamos vigorosamente por mais de meia hora. Depois vinha a aula de polca, que era dançada por todas aquelas que já haviam passado o estágio do tumba, tumba, tumba — as mais experientes dançavam com as mais jovens. “Você me viu dançando a polca? Você viu as abas de minha casaca esvoaçando?” A polca era alegre, mas desinteressante. Depois vinha a grande marcha, na qual, aos pares, saíamos do meio da sala, dávamos a volta junto às paredes e formávamos desse modo várias figuras de oito, as mais antigas na frente, e as mais recentes Seguindo-as. Para a marcha podíamos escolher nossos pares e, por causa disso, sempre havia algum azedume. Naturalmente, todo mundo queria escolher como par Helen ou Aileen, mas a srta. Hickey ficava atenta para que não houvesse monopólios. Depois da marcha, as mais jovens eram remetidas para a sala das juniores, onde aprendiam os passos da polca, ou, mais tarde, de valsa, ou os passos de suas danças preferidas, as que desejassem aprender. As mais velhas treinavam os passos das danças de fantasia, sob o olhar vigilante da srta. Hickey, na sala grande. Essas danças de fantasia consistiam em alguma dança com um pandeiro, ou uma dança espanhola com castanholas, ou a dança do leque.

Por falar nisso: uma vez mencionei a minha filha Rosalind e a sua amiga Susan, quando tinham mais ou menos dezoito anos de idade, que eu dançara, na minha mocidade, uma dança do leque. Suas risadas irreverentes intrigaram-me.

“Será que dançou mesmo, mãe? A dança do leque! Susan, ela dançou a dança do leque!”

“Oh!”, disse Susan, “sempre pensei que a gente vitoriana fosse muito mais escrupulosa!”

Em breve descobrimos que, quando falávamos em dança do leque, não nos referíamos à mesma coisa.

Depois disso, as moças mais velhas sentavam-se, e as mais jovens dançavam a sua dança, que era a sailor’s hornpipe1, ou qualquer outra alegre dança folclórica, não demasiado difícil. Finalmente, entrávamos nas complicações dos lancers2. Também nos ensinavam a Swedish Country dance e Sir Roger de Coverley. Essas últimas eram especialmente úteis para, quando fôssemos a festas, não passarmos a vergonha de desconhecer tais atividades sociais.

Em Torquay, nossa turma era quase inteiramente composta de moças. Quando freqüentei as aulas de dança em Ealing, também iam muitos rapazes. Nesse tempo eu tinha, acredito, uns nove anos de idade, era muito tímida e ainda não me tornara adepta da dança. Um menino encantador, possivelmente mais velho do que eu um ano, veio pedir-me para ser meu par nos lancers. Aflita e deprimida, disse que não sabia dançar os lancers. Foi um momento muito duro para mim: jamais conhecera um rapaz tão atraente. Tinha cabelo escuro, olhos alegres, e senti imediatamente que éramos almas gêmeas!

Fiquei sentada, tristemente, quando os lancers começaram, mas quase imediatamente a sra. Wordsworth veio ter comigo: “Então, Agatha, vá dançar. Não queremos ninguém sentado!”

“Não sei dançar os lancers, sra. Wordsworth!”

“Não há problema, queridinha, em breve saberá. Vamos buscar um par para você.”

Encontrou um rapaz sardento, de nariz arrebitado e cabelos cor de areia; também devia sofrer de adenóides. “Aqui está, William.” No correr da dança, por ocasião daqueles passos das visitas, encontrei-me com meu primeiro amor e meu primeiro par. Sussurrou-me, ressentido: “Você não quis dançar comigo, e agora está dançando! Foi muito desagradável de sua parte”. Tentei contar-lhe que a culpa não era minha, que pensei que não conseguiria dançar os lancers, mas que fora obrigada a dançar; mas não houve tempo, durante esses passos, para entrar em explicações. Ele continuou a me olhar com ressentimento até o fim da aula. Tive esperança de encontrá-lo novamente na semana seguinte. Infelizmente, nunca mais voltei a vê-lo. Uma das tristes histórias de amor que a vida nos reserva!

A valsa foi a única dança que aprendi que me seria útil pela vida afora, e eu jamais gostei, realmente, de valsar. Não gosto do ritmo, que sempre me deu tonturas, sobretudo quando tinha a honra de dançar com a srta. Hickey. Ela dava umas voltas maravilhosas, voltas que praticamente me erguiam no ar e me deixavam, no fim dessa atuação, com a cabeça tonta, mal podendo sustentar-me em pé. Mas tenho que admitir que era bonito vê-la dançar.

(“Autobiografia”, Segunda Parte, Cap. 4)

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