Atmosfera – 2

Capa do livro O Misterioso Sr. QuinRelembrando um post de fevereiro de 2009, que citava O Homem do Terno Marrom, abaixo vai um trecho de outro livro de Agatha que fala sobre atmosfera, com curiosa citação ao século 21 (o livro é de 1930):

— Não, não — disse o Sr. Quin, sorrindo. — Desde que, pelo menos em nossa imaginação, podemos controlar o tempo, vamos fazer as coisas ao contrário. Digamos que o desaparecimento do Capitão Harwell aconteceu há cem anos. E que, no século 21, estamos rememorando-o.

— O senhor é um homem estranho — disse o Sr. Satterthwaite, devagar. — Acredita no passado, não no presente. Por quê ?

— O senhor empregou, há pouco, a palavra atmosfera. Não há atmosfera no presente.

— Talvez seja verdade — disse o Sr. Satterthwaite pensativamente. — O presente tende a ser… limitado.

— Uma boa definição — disse o Sr. Quin.

(”O Misterioso Sr. Quin”, 1930, conto “Na Estalagem de Bells e Motley”, página 60 da tradução de Sônia Coutinho para a quarta edição da Editora Nova Fronteira)

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3 pensamentos sobre “Atmosfera – 2

  1. Um dos problemas maiores da literatura policial é a tradução. Verifico nas centenas de livros que já li, que caso o autor escrevesse na sua língua original daquele modo, jamais poderia ter sucesso.
    Este pequeno texto colocado no blogue permitiu-me fazer uma comparação entre duas traduções do emsmo conto: a tradução brasileira e a portuguesa.
    A maior alteração é no título que em Portugal se designou “A estalagem do Bobo”, sendo o texto do Brasil mais fiel ao original.
    O restante texto em Português está aqui:

    – Isso não – objectou Quin. – Já que, com a imaginação podemos influir no tempo, ponhamos a questão de modo inverso. Admitamos que o desaparecimento se verificou há cem anos e , situados em dois mil e vinte e cinco, evoquemos o passado.
    – É um homem realmente estranho – concedeu Satterthwaite. – Acredita mais no passado do que no presente. Porquê?
    – Há pedaço, empregou o termo “ ambiente”. No momento presente esse “ambiente” não existe.
    – Talvez tenha razão. O presente corre o risco de se converter em… paroquial.
    – Eis uma palavra acertada.

    Há expressões que surgem num deles, mas já não surgem no outro.
    Há alteração de palavras que poderão em muito alterar o sentido original.
    Repare-se que “Acredita mais no passado do que no presente” é completamente distinto de “Acredita no passado, não no presente”. Um dos tradutores ou os dois ( eu não conheço o texto original) traduziu a ideia de forma incorrecta.
    O uso da palavra “paroquial” ou da palavra “ limitado” faz toda a diferença na análise do estilo de Christie. Algum dos tradutores fugiu ao estilo.
    Mesmo a última frase deste pequeno texto traduz ideias diferentes nas duas traduções.
    Um dos problemas dos tradutores, em especial dos que fazem tradução de literatura policial é considerarem que importa o enredo, o enigma, mas que o estilo é irrelevante. Nada mais errado. Há excelentes escritores de literatura policial que depois de traduzidos ficam lixo.
    Aqui em Portugal, as primeiras traduções de Raymond Chandler e Dashiell Hammett, na década de cinquenta, transformaram dois excelentes escritores, em escritos vulgares, de qualidade medíocre.
    Para terminar, parabéns pelo blogue, que eu descobri recentemente.
    É muito bom, não estar limitado apenas aos 10 milhões de portugueses, para poder encontrar páginas em português na internet.

  2. Olá, Paulo,

    é um prazer receber seu comentário. Nosso blog é feito no Brasil (e daí o português ser o “pt-br”, como o chamam na internet).

    De fato, a tradução é um dos aspectos mais curiosos, inclusive porque varia bastante de tradutor para tradutor, ainda que sejam residentes do mesmo país: questões de formação cultural, de ponto de vista, de inte(g)ração com a leitura, tudo isso afeta a tradução. Nossa Lady Lucy Angkatell, que divide comigo este blog, certamente tem mais embasamento para falar sobre isso melhor que eu. Acompanhamos isso em diversos estilos de livros, mais recentemente nos famosos livros de Harry Potter, com as “licenças poéticas” da tradutora…

    No caso do português, fica a questão: será que a atual reforma ortográfica da Língua Portuguesa, já em voga no Brasil e, por aqui, já sendo estudada por muitos e criticada por alguns, mudará de alguma forma este cenário de diferenças entre nossas traduções ‘brazucas’ e as da pátria lusa ?

    Obrigado pela visita a esta nossA Casa Torta e fica o convite para conhecer meus outros sites, entre eles:

    Cinema é Magia
    http://cinemagia.wordpress.com

    Grande abraço, volte sempre e recomende aos amigos, 🙂
    Tommy Beresford

    .

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