Artur Xexéo, Agatha e o final dos filmes, peças e livros

A coluna de Artur Xexéo de hoje [05.09.2010] no jornal O Globo cita Agatha e fala sobre a impressionante mania que algumas pessoas (e sites) têm de revelar o final de filmes, livros e peças de teatro. Infelizmente, para construir o texto, o colunista não conseguiu se furtar de revelar o segredo do filme “O Sexto Sentido”, esquecendo que há sim pessoas que nunca viram o filme. Portanto, se você ainda não o assistiu (história de M. Night Shyamalan, não de Agatha), melhor não ler…

Segredo a qualquer custo
(Artur Xexéo)

Custei para assistir a “O sexto sentido” nos cinemas. Todo mundo já tinha visto, e eu evitava as conversas sobre o filme, que a propaganda garantia ter um final surpreendente. Eu tinha medo de que qualquer conversa pudesse me revelar o tal final surpreendente, e o filme perder a graça para mim. Uma coisa é assistir a um filme sabendo o final, outra coisa é assistir a um filme de suspense sabendo o final.

Passei incólume pelas conversas sobre “O sexto sentido” uns dois meses. Na véspera do dia programado para, enfim, ir ao cinema, Villas-Bôas Correa entrou na minha sala no jornal. Gelei. Villas adora uma con-
versa sobre vida após morte. Ele estava empolgado.

— Já viu “O sexto sentido”?

Gelei. Algo me dizia que aquele bate-papo não ia acabar bem.

— Não.

Minha negativa não foi um empecilho para o entusiasmo de Villas. Nem teve tempo para o papo não acabar bem. O papo começou mal.

— Eu logo percebi que o Bruce Willis estava morto.

Pronto. Acabou minha surpresa. Não tive coragem de mostrar minha decepção para Villas. Engatei na conversa e ficamos horas discutindo um filme que eu não tinha visto, que eu iria ver no dia seguinte e que já não tinha mais graça para mim.

Ler um livro policial, ver um filme de suspense, assistir a uma peça de teatro de mistério sabendo-se o final é a atividade mais sem graça do mundo. Por isso, entendo a revolta dos fãs de Agatha Christie com o verbete da Wikipedia sobre “A ratoeira”, a peça da escritora de romances policiais que estreou em Londres em 1952 e que permanece em cartaz até hoje. “A ratoeira” é uma peça bem armada. Ela junta numa casa de campo em Londres sete personagens. Um deles é um assassino. Cabe ao espectador descobrir quem é. A revelação é surpreendente. Todas as noites, após a sessão, é solicitado à plateia que não revele o final a ninguém. É o mesmo pedido que foi feito aos espectadores de “Psicose”, quando o filme de Alfred Hitchcock chegou pela primeira vez aos cinemas. É uma maneira de se manter o prazer dos próximos espectadores. Mal ou bem, o segredo de “A ratoeira” tem sido guardado há 58 anos.

A Wikipedia veio estragar a festa. Num verbete muito bem elaborado sobre a peça, ela conta as origens do espetáculo, registra todos os recordes de permanência em cartaz que ela tem batido e faz uma sinopse caprichada. Tão caprichada que não deixa de revelar o nome do assassino.

(Fonte: revista O Globo, 05.09.2010, página 58, e blog de Artur Xexéo)

Um pensamento sobre “Artur Xexéo, Agatha e o final dos filmes, peças e livros

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