Evil Under The Sun / Morte na Praia

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There is an evil which I have seen under the sun, and it {is} common among men [Eclesiastes 6.1, Bíblia versão King James]
Vi um mal debaixo do sol, que calca pesadamente o homem. [Eclesiastes 6:1, Bíblia versão católica]

A escritora inglesa Agatha Christie foi batizada na Igreja Anglicana, mas teve contato com o catolicismo, unitarismo, teosofia, zoroastrismo e o espiritismo em sua vida graças à mente avançada de sua mãe. Seu segundo marido, o arqueologista Max Mallowan, era católico romano. Em seus livros a autora costuma apresentar os princípios éticos cristãos ao punir o criminoso, o agente do Mal.

Sua personagem Miss Marple é anglicana, Hercule Poirot é católico; embora a autora defenda a punição do mal supremo que é o homicídio, ela também criticava a severidade exagerada dos fanáticos religiosos que expulsavam jovens grávidas de casa, por exemplo. Para ela, o único pecado imperdoável é tirar a vida de outra pessoa – tanto que se debate em dúvida sobre o que fazer com o criminoso apanhado.

Os romances de Agatha Christie demonstram a gradual mudança de percepção da autora sobre o assunto: se nos primeiros livros o assassino ia diretamente para a forca ou se justificava alguns casos de homicídio, ela passa a dedicar mais atenção à vítima nos livros posteriores.

Agatha Christie (foto sem data)

Que poderemos fazer por aqueles que estão corrompidos pelos germes da crueldade e do ódio, para quem a vida dos outros não vale nada? Muitas vezes são pessoas que possuem boas casas e tiveram boas oportunidades na vida, e educação, que se transformam no que, em bom inglês, se chama de “malvados”. Será que há cura para a maldade? Que podemos fazer a um assassino? [Agatha Christie, Autobiografia, trad. Maria Helena Trigueiros. São Paulo: Círculo do Livro, 1989]

O título do livro Evil Under the Sun baseia-se no versículo da bíblia do Rei James que continua assim na versão atualizada para a linguagem moderna: “Deus dá a alguns tudo o que desejam—riquezas, propriedades e fama. Porém depois não deixa que eles aproveitem nada disso.”

Fonte: Bíbila Online [você pode conhecer várias versões e traduções no site]

No romance de Agatha Christie publicado pela primeira vez em 1942, o sol brilha na ilha de Burgh no condado do Devon, na costa inglesa. O detetive belga Hercule Poirot se esforça por adaptar-se aos hábitos britânicos, o que inclui o feriado de verão em agosto, quando os ingleses vão à praia. Poirot hospeda-se no hotel Jolly Roger da Sra. Castle e convive com o casal Gardener, norte-americanos em férias que também estão experimentando o costume inglês; o Reverendo Lane, que pressente o Mal; o Major Barry, militar aposentado que serviu na Índia; Horace Blatt, homem de negócios e iatista; a atlética Miss Emily Brewster; a modista Rosamund Darney, o jovem casal Redfern; e o casal Capitão Marshall e Arlena Stuart Marshall  com a filha dele, Linda.

– Um enigma a ser decifrado, omitindo a identidade do assassino, desenvolvendo personagens detetives que se encarregavam de coletar depoimentos dos suspeitos para, geralmente, apresentarem uma ‘‘solução’’ surpreendente sobre os casos, apontando como culpado aquele personagem que, em princípio, encontrava-se fora de qualquer suspeita. Essa era a fórmula do romance policial britânico – ensina Messa. [Diário Catarinense, 18/09/10]

A autora usou a fórmula que a consagrou com Assassinato no Expresso do Oriente e Morte no Nilo: ambiente isolado, um grupo restrito de suspeitos. Em Morte na Praia a vítima é a atriz Arlena Stuart, uma beldade que atrai a atenção dos homens e o desprezo das mulheres à primeira vista, mas que Dame Agatha acabou por transformar num indivíduo digno de piedade.

No processo de investigação, Poirot até reconhece o mérito da análise forense em alguns casos, mas dedica a maior parte da investigação à vitimologia, ao estudo da vítima, o que fica bem claro nesse livro: é importante conhecer Arlena Marshall para saber de que tipo de criminoso ela seria presa.

Agatha Christie usou a mesma trama no conto Triângulo em Rodes, porém com um final diferente.

O hotel continua em funcionamento e tem programação especial na época do aniversário da escritora [v. site].

Assinaturas de Fred e Adele Astaire, Cole Porter, Charlie Chaplin e Maurice Chevalier no registro do hotel (cena do filme); a de Marlene Dietrich está sob os dedos de Ustinov

James Mason recalled this time as the most relaxed experience of his long career. His laid-back attitude seems to have infected the entire production and the critics were unanimous in mentioning the garish period costumes and Cole Porter sound track over the slow-moving plot and direction. [Dick Riley & Pam McAllister, The Bedside, Bathtub & Armchar Companion to Agatha Christie. 2nd Edition. London: Continuum, 2001]

James Mason recorda-se desse período como a experiência mais descontraída de sua longa carreira. Sua atitude relaxada parece ter contagiado toda a produção e os críticos foram unânimes em citar os espalhafatosos figurinos de época e a trilha sonora de Cole Porte sobre as lentas trama e direção. [tradução livre]

Evil Under the Sun / Assassinato num Dia de Sol

Essa foi a quarta adaptação da dupla de produtores responsáveis por Assassinato no Expresso Oriente e Morte sobre o Nilo, o segundo estrelado por Peter Ustinov. [A terceira adaptação foi A Maldição do Espelho, um Miss Marple que comentarei mais à frente.] Lançado seis anos após a morte de Agatha Christie, o roteiro de Anthony Shaffer é muito pouco fiel ao livro: os personagens Major Barry e Reverendo Lane não existem, Rosamund Darnley e Mrs. Castle transformaram-se numa única pessoa e Miss Brewster deixou de ser uma atleta para virar um escritor efeminado.

O casal Gardener perdeu o ar cômico para encarnar a cobiça de produtores teatrais norte-americanos, mas a maior alteração foi feita na personalidade de Arlena Marshall. Toda a sutileza do texto de Agatha Christie no que se refere à personagem foi ignorada e a Arlena Stuart de Diana Rigg transformou-se numa megera cujo assassinato torna-se desejável, previsível e justificável.

O diretor Guy Hamilton transferiu a ação para uma ilha fictícia no Mediterrâneo [o filme foi gravado em locação em Maiorca] e eliminou as tramas secundárias, o que me deu a impressão de ser uma tentativa de copiar a fórmula dos dois filmes anteriores: lugar exótico, elenco estrelado, trilha sonora assinada por compositor popular [Cole Porter, nesse caso], vilanização da vítima e motivação justificável para o crime para todos os suspeitos.

Depois de identificar a fórmula, confesso que perdi quase todo o interesse em continuar assistindo às adaptações seguintes.

No elenco, dois atores de Assassinato no Expresso Oriente [Dennis Quiley e Colin Blakely, em seu último filme] e duas atrizes de Morte Sobre O Nilo [Maggie Smith e Barbara Hicks, que não foi creditada em 1978], além de Peter Ustinov. O traje de banho que Poirot usou neste filme foi criado pelo próprio ator. Diana Rigg estrelou outra adaptação cinematográfica da obra de Agatha Christie naquele mesmo ano, o remake de Testemunha de Acusação, no papel que foi de Marlene Dietrich.

O DVD brasileiro está esgotado nas lojas já faz muito tempo, de vez em quando aparece um usado nos sites de classificados.

O hotel na ilha de Burgh e o trator que transporta hóspedes na maré baixa

O hotel na ilha de Burgh e o trator que transporta hóspedes na maré baixa (cena do episódio)

– Hoje em dia ninguém mais acredita no Mal, que é considerado no máximo como uma negação do Bem. O Mal, dizem as pessoas, é feito pelos que não sabem, pelos que não se desenvolveram, por pessoas de quem devemos ter pena em vez de condená-las. Mas, M. Poirot, o Mal é uma realidade! É um fato! Acredito no Mal como acredito em Deus. [Agatha Christie, Morte na Praia, trad. Vera Teixeira Soares. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005]

Agatha Christie’s Poirot: Evil Under the Sun

No primeiro episódio da oitava temporada da série da ITV o roteiro de Anthony Horowitz é mais fiel ao livro, embora apresente algumas alterações menores; a principal foi trocar a filha do Capitão Marshall, Linda, por um filho [Lionel]. Também acrescentou os personagens relacionados a Poirot que não participam originalmente do livro: Inspetor-Chefe Japp, Capitão Hastings e Miss Lemon.

A ilha e o hotel em que o episódio foi filmado são exatamente os mesmos em que Agatha Christie se hospedou para escrever Morte na Praia e que serviu de inspiração para a Ilha do Negro [O Caso dos Dez Negrinhos/E Não Sobrou Nenhum].

A direção de Brian Farnham permitiu que atores menos famosos do que os da versão de 1982 entregassem uma atuação mais condizente com o que se lê no livro, mesmo que a ação seja um pouco diferente. Eu gostei especialmente da Christine Redfern de Tamzin Malleson, que criou uma “brava esposinha” com quem o espectador simpatiza, e do Horace Blatt de David Timson, que deixa perceber que há algo errado sob aquela exuberância.

Embora a Arlena Stuart de Louise Delamere não tenha aparecido em cena o bastante para criar o tal “estudo da vítima”, também não caiu na fórmula fácil da personagem antipática que todos desejam matar do filme de 1982. Foi a última participação dos atores Philip Jackson [Japp] e Pauline Moran [Miss Lemon] na série e a penúltima participação de Hugh Fraser [Hastings], que se despediria no episódio seguinte.

Talvez seja por isso que as cenas envolvendo o quarteto tenham me soado tão ternas e engraçadas.

Erro factual: o episódio mostra o trator marítimo, mas segundo o site do hotel esse veículo foi inventado em 1969: a história se passa em 1941…

Hercule Poirot: [upon hearing a doctor’s diagnosis of his fainting at a social gathering] I demand at once a second opinion! Hercule Poirot, he is not obese!

Comparativo de elenco

Personagem 1982 2001
Hercule Poirot Peter Ustinov David Suchet
Patrick Redfern Nicholas Clay Michael Higgs
Christine Redfern Jane Birkin Tamzin Malleson
Arlena Stuart Marshall Diana Rigg Louise Delamare
Kenneth Marshall Denis Quiley David Malinson
Linda Marshall Emily Hone não existe
Lionel Marshall não existe Russell Tovey
Horace Blatt Colin Blakely David Timson
Mrs. Castle Maggie Smith Rosalind March
Delegado Weston John Alderson Roger Alborough
Emily Brewster não existe Carolyn Pickles
Rex Brewster Roddy McDowall não existe
Odell Gardener James Mason não existe
Myra Gardener Sylvia Miles não existe
Mr. Flewitt Richard Vernon não existe
Secretária Barbara Hicks não existe
Capitão Hastings não existe Hugh Fraser
Inspetor-Chefe Japp não existe Philip Jackson
Miss Lemon não existe Pauline Moran
Stephen Lane não existe Tim Meats
Rosamund Darnley não existe Marsha Fitzalan
Major Barry não existe Ian Thompson

Evil Under The Sun [1982] trailer


Link http://www.youtube.com/watch?v=2xYoMiTvcAA

Primeiros minutos da série


Link http://www.youtube.com/watch?v=06bB-SedjbU

Adaptações em outras mídias
Peça de rádio transmitida pela BBC 4, com John Moffat no papel de Poirot
Jogo para computador

Para saber mais
Agatha Christie site oficial
Artigo The Christian World of Agatha Christie
Perfil de Agatha Christie no NNDB
Verbete na Wikipedia

Este post faz parte das comemorações pelos 120 anos de nascimento da escritora Agatha Christie.

Posts relacionados
Testemunha de Acusação
Murder on the Orient Express / Assassinato no Expresso do Oriente
Death on the Nile / Morte no Nilo

4 pensamentos sobre “Evil Under The Sun / Morte na Praia

  1. Nossa! Eu simplesmente adorei todas as 3 análises que você fez! Por favor, continue. Acho que do Poirot ainda faltam:

    Appointment with Death (Ustinov e Suchet)
    Lord Edgware Dies / Thirteen at Dinner (Ustinov e Suchet)

    E daqui a uns dois anos: Dead Man’s Folly (adoro esse livro).

    De Miss Marple dá pra fazer de quase todos. Os filmes de Joan Hickson são muito fiéis aos livros, ao contrário da nova série de filmes de Geraldine McEwan e Juliet McKenzie.

    • oi, matheus,

      brigada pelo comentário!

      eu vou dar um tempinho no poirot mas pretendo completar com a trilogia [os 2 que vc mencionou e three act tragedy, que foi o primeiro episódio da atual temporada]. só me falta achar os filmes com o ustinov.

      antes disso farei uma série de posts com as miss marple [the mirror crack’d e 4.50 from paddington e mais um que ainda não decidi]. tenho o livro, filme e a dupla de episódios já no jeito, só falta tempo para reler, assistir e compor os posts, heheheh…

      mas um dia ele saem!

      • Verdade…. tem Three Act Tragedy mesmo… Hastings faz parte dele (lembro do conversível amarelo dele!) no filme de Ustinov. Quem me dera ter essa energia sua!

  2. aDORO Agatha.O Livro que mais gostei foi A casa torta, precisamente o titulo do blog.ja li uma vintena de livros dela, mas quero ler mais.Imagino se ela fosse viva agora, que policias iria escrever.

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