Sugestão de leitura: Desenterrando o Passado (Agatha Christie)

Além da sua Autobiografia, Agatha Christie publicou um livro de viagens em que registra as expedições arqueológicas que fez com o marido. O título original [“Come, Tell Me How You Live”] é um verso de Lewis Carroll [Alice Através do Espelho] e o livro é uma resposta da autora às pessoas que perguntavam fequentemente:

“Então você faz escavações na Síria, não é? Conte-me tudo a respeito. Como você vive? Numa tenda?” etc, etc. A maioria das pessoas, provavelmente, não está interessada em saber. São só as miudezas da conversa. Mas, volta e meia, há uma ou duas pessoas que estão realmente interessadas.

O título brasileiro também está relacionado com o mesmo poema de Carroll, em seu último verso: “E desenterrar o passado em longínquas colinas!” A escritora publicou o livro com seu nome de casada, Agatha Christie Mallowan – ela o fez apenas uma outra vez, na coletânea Star Over Bethlehem and other stories [poesias e contos religiosos, não publicado no Brasil].

Ela o escreveu durante a Segunda Guerra Mundial enquanto Max Mallowan estava no Egito e ela em Londres, dividindo seu tempo entre o trabalho na farmácia do hospital e novos romances policiais, uma época produtiva para a escritora. Christie o finalizou em junho de 1945 e Desenterrando o Passado foi publicado em novembro de 1946.

Vale lembrar que este é um registro pessoal e que reflete uma visão de época, anterior ao politicamente correto. Porém, como resistir à profunda auto-ironia da autora?

Fazer compras para um clima quente no outono ou no inverno apresenta certas dificuldades. As roupas do verão passado, que, otimisticamente, a gente pensou que iam “dar”, agora que a hora chegou, “não dão”. Por um lado parecem estar (como as deprimentes relações de móveis em mudanças) “Machucadas, Arranhadas e Marcadas”. (E também Encolhidas, Desbotadas, e Estranhas!) Por outro lado — que lástima alguém ter que dizer isso! — estão apertadas por todos os lados.

No Brasil existe apenas a edição da Nova Fronteira desde 1974 [tradução de Cora Rónai Vieira], esgotada e só encontrada em sebos como os da Estante Virtual. Em Portugal a Tinta da China publicou em 2010 com o título Na Síria, e em inglês exstem diversas edições ainda em catálogo.

Sinopse
A autora narra o trabalho do marido, um dos maiores arqueólogos do nosso tempo, Max Mallowan, e suas implicações para a vida de ambos. A história começa alguns anos antes da Segunda Guerra Mundial, quando o casal visita o Iraque e a Síria. Agatha Christie faz uma crônica dessa experiência e relata de forma divertida como se vive enquanto se desenterra o passado do Oriente Médio.

Agatha & Arqueologia: dois artigos interessantes

Max Mallowan, Agatha Christie e Leonard Woolley em Ur, 1931 ( The British Museum)

Max Mallowan, Agatha Christie e Leonard Woolley em Ur, 1931 (The British Museum)

Um artigo publicado no site Greenwich Citizen relata a viagem que o arqueólogo C. Brian Rose realizou recentemente ao sul do Iraque. Entre narrativas da destruição de patrimônio histórico, cultural e arqueológico  feita pelos soldados estrangeiros na ocupação do país, a autora do artigo cita o museu que Rose representa, na Universidade da Pennsylvania.

Part of that exhibit shows a picture of Agatha Christie with her archeologist husband during the British excavation of Ur in the 1920’s. Christie had written “Murder in Mesopotamia,” during that time.[Greenwich Citizen, 25/12/09]

O escritor Arthur Clark publicou um artigo em que revela um pouco da real personalidade de Agatha Christie, através da percepção de pessoas que a acompanharam nas expedições e que tiveram contato direto, em primeira mão, com a autora.

Robert Hamilton, inspetor de escavações em Nimrud: “As estradas no Iraque eram terrivelmente ruins nos anos 1950, mas Agatha nunca resmungou em nenhum de todos os trancos. Ela aguentava qualquer desconforto. Sua resistência à exaustão física era incrível.” “Agatha tinha uma máquina de escrever e datilograva o tempo todo. Ela escrevia quase todos os dias.”

Rosalind Christie Hicks, filha de Agatha que a acompanhou num acampamento na Síria nos anos 1930: “Ela nutria muita simpatia pelos árabes e pelas pessoas com quem tinha contato. Ela compreendia o modo de viver deles e não tentava interferir na vida deles de modo algum.”

E ela foi conselheira médica para a força de 140 trabalhadores turcos, curdos e árabes. Ela prestou serviços como enfermeira e ajudante de farmácia na Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial, treinamento que foi inestimável quando o médico estava a um dia ou mais de distância. [Arthur Clark para a revista Saudi Aramco World, ed. jul/ago 1990 *]

* Tradução livre.

A paixão de Agatha Christie pelos trens

Victoria Station, Londres, 1960

Victoria Station, Londres, 1960

Querida Victoria — portão para o mundo para lá da Inglaterra — como eu gosto da sua plataforma continental! E como eu gosto de trens, de qualquer maneira! Sorvendo em êxtase o cheiro sulfuroso — tão diferente daquele, leve, amorfo e distantemente oleoso de um navio, que sempre me deprime com a sua profecia de nauseosos dias por vir. Mas um trem — grande, barulhento, apressado e amistoso, com sua enorme locomotiva fumacenta soltando nuvens de fumaça, que parece dizer, impacientemente: “Eu tenho que ir, eu tenho que ir, eu tenho que ir!” — é um amigo! Está no mesmo estado de espírito que você, já que você também está dizendo: “Eu estou indo, estou indo, estou indo…” (Agatha Christie, Desenterrando o passado, Nova Fronteira)

Adriano ou Antonino?

– Astartéia, Istar ou Astoret, como você quiser chamá-la. Eu prefiro nome fenício de Astartéia. Creio que se sabe da existência de um bosque de Astartéia no país. Fica no Norte, junto à Muralha Romana. (Os treze problemas, Nova Fronteira, pág. 23)

Alto-relevo de Vênus ao norte da Muralha de Adriano

Alto-relevo de Vênus ao norte da Muralha de Adriano

Existem duas muralhas romanas ao norte da Inglaterra: a mais famosa e em melhor condição é a Muralha de Adriano; a muralha de Antonino encontra-se no que hoje em dia é o meio da Escócia, mas quando foi construída limitava a fronteira com a Inglaterra. Não encontrei referências a um bosque dedicado a Ishtar em nenhum dos dois, entretanto, pode ser que se trate de um bosque dedicado à deusa romana Vênus ou à grega Afrodite, que são outras manifestações da fenícia Astartéia.

Se for este o caso, o alto-relevo de Vênus em High Rochester, ao norte da Muralha de Adriano, pode identificar o local perto de onde esse bosque se encontre.

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O mistério da Múmia Amarela

Sarcófago de Nes-Per-N-Nub

Sarcófago de Nes-Per-N-Nub

Agatha Christie acompanhava seu segundo marido, o arqueólogo Max Mallowan, em suas escavações. Esta experiência resultou no livro de viagem Desenterrando o Passado (Come, tell me how you live, 1946), que ela escreveu em suas horas vagas durante a Segunda Guerra Mundial. Max trabalhava no Conselho Britânico no Egito e Agatha trabalhava em Londres num hospital.

Foi depois de uma viagem ao Egito que a Dama do Crime escreveu o romance policial Morte no Nilo (Death on the Nile, 1937). Além do livro, esta experiência rendeu também uma mostra permanente chamada Agatha Christie’s Egypt: Life on the Nile in the 1930s.

The exhibition shows Egypt the way it would have looked to the eyes of Agatha Christie and other Western tourists of 1930s. Magnificent black and white photographs show archaeological excavations and the great Egyptian monuments – Sphinx of Giza and the temples of Karnak and Luxor. The photographers of the 1930s caught the last view of the island of Philae, which went under water after the Aswan Dam was opened. Next to these iconic images are pictures of the daily life of Egyptians: people making mats, molding bricks, and discussing everyday affairs. (SF Gate)

Denre os itens desta exposição, duas múmias atraem a atenção do visitante: a múmia de Nes-Per-N-Nub, um sacerdote que morreu de causas naturais provavelmente perto de mil anos antes de Cristo; e uma múmia sem nome batizada de Yellow Mummy por causa da cor do sarcófago em que foi encontrada.

What happened after the Yellow Mummy’s death is even more mysterious. Inside her linen wrappings lie the bones of multiple bodies, according to X-ray scans of the mummy. (Golden Gate [X]Press)

A exposição estará aberta para visitantes de San Francisco (California/EUA) entre os dias 3 de novembro e 12 de dezembro de 2008 no prédio de Humanidades da Universidade de San Francisco.

O Homem do Terno Marrom

Sinopse de Antonio Geremias: Política internacional, amor e ciência A mestra inglesa não tinha medo de tema algum. Aqui, política internacional, discussões científicas e o amor mesclam-se de maneira inesperada. A Scotland Yard, famosa polícia inglesa, toma o centro das investigações, mas sobra espaço para um estranho milionário, uma jovem arrebatadora, um estranho homem. Com um texto ágil, aonde parte das informações sobre o enredo nos vem em forma de diário, “O Homem do Terno Marrom” nos mostra como Agatha Christie não dependia de seus famosos detetives (entre eles, Hercule Poirot e Miss Marple), para construir seus mais empolgantes casos. Com ações passadas em Londres e na África do Sul, lá estão as viagens que tanto atraem a autora, os mistérios de lugares longínquos, habitados por gente estranha e perigosa, por onde seus ingleses tão característicos andam e cometem crimes.

The Man in the Brown Suit (1924)
(O Homem do Fato Castanho, em Portugal)

Citações e referências
Sobre o Coronel Race:

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Agatha Christie and Archaeology

Expresso do OrienteEm sua autobiografia (1977), Agatha Christie dizia:

All my life I had wanted to go on the Orient Express. When I had travelled to France or Spain or Italy, the Orient Express had often been standing at Calais, and I had longed to climb up into it. Simplon-Orient-Express–Milan, Belgrade, Stamboul…

Desnecessário dizer que o Expresso do Oriente foi tema de um de seus livros mais famosos. O site abaixo é apenas uma das quatro seções que fala de Agatha Christie e, nesta primeira parte, tem foco justamente no Orient Express (com destaque para as fotos e ilustrações):

Agatha Christie and Archaeology

A mulher que mais crimes tinha na consciência

ac-diario.jpgO jornalista português Fernando Madaíl escreveu, em artigo para o Diário de Notícias, sobre a impressão que a visita da escritora ingles Agatha Christie provocou em quem testemunhou sua visita à Portela (região de Braga) em 1965, enquanto acompanhava o marido que fôra convidado para proferir duas conferências sobre a Mesopotâmia.

E, no entanto, o convidado era o seu segundo marido, que escavara no Iraque e na Síria, enquanto ela, usando vestido de seda nas estações arqueológicas, limpava milenárias peças de marfim e congeminava os enredos de Assassínio na Mesopotâmia (1936), Morte no Nilo (1937), Morte entre as Ruínas (1938) ou E no Final, a Morte (1945). (Diário de Notícias)

Aventura em Bagdá

Capa do livro Aventura em BagdáSinopse da quarta capa: Um homem morreu no quarto de hotel de Vitória Jones, uma mulher sozinha e falida em Bagdá. Outro foi encontrado por perto e Vitória tinha um pressentimento de que haveria ainda mais. Não era nada do que ela tinha planejado. Na realidade tinha vindo ao Oriente Médio numa espécie de passeio. Vitória era impulsiva e uma mentirosa contumaz. Ela sabia demais.

They Came To Baghdad (1951)
(Encontro em Bagdade, em Portugal)

Citações e referências
Referências diversas

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