Ingredientes da morte: Venenos utilizados por Agatha Christie em seus livros

Da lista de mais de 1.100 posts publicados nesses 10 anos em nosso blog “A Casa Torta”, desde janeiro de 2008, alguns temas são bastante populares: bolo de café, charuto de repolho, flores, pudins, moedas… mas certamente (se juntarmos todas as buscas por Curare, Arsênico, Estricnina, Atropina…) nada é tão procurado quanto… venenos! Abaixo, alguns dos posts que trataram deste curioso tema:

Poções de Agatha: Arsênico, Ricina, Digitalina e outros venenos em novo livro [02.12.2017]

Torre Abbey e as plantas venenosas dos livros de Agatha [24.11.2009]

A senhora perita em venenos [04.09.2008]

Amêndoas & Venenos [24.01.2008]

Atropina [03.11.2008]

Ricina [06.08.2008]

Ptomaína [26.07.2008]

Curare [06.05.2008]

Arsênico [15.04.2008]

Estricnina [18.03.2008]

Verde de Scheele [12.02.2008]

Não nos responsabilizamos pelo uso de nenhuma dessas substâncias: reclamem com Agatha… 🙂

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Portugal: Exposição Agatha Christie e as Plantas

Uma exposição denominada “De St. Mary Mead ao Cairo – Agatha Christie e as Plantas” está à disposição do público em Beja (cidade portuguesa, capital do Distrito de Beja, na região Baixo Alentejo, Portugal), desde 15.06.2011:

O Museu Botânico do Instituto Politécnico de Beja apresenta imagens e objectos (sementes, frutos, folhas) que evocam as plantas utilizadas por Agatha Christie — como veneno (cianeto, estricnina, atropina, etc.) ou apenas plantas típicas dos ambientes onde decorreram as acções dos romances (palmeira-tamareira, palmeira-de-Tebas, fidalguinhos).

Em junho e julho de 2011, o Museu Botânico fica aberto às quartas e quintas-feiras de 9h às 12:30h e das 14h às 17h. Visitas poderão ser marcadas, em outros horários, através dos e-mails:

museu@ipbeja.pt
p.nozes@ipbeja.pt

Pilocarpina

Miss Marple olhou em derredor, adiando seu momento de triunfo:
– Pilocarpina. (…) Eu virei rapidamente as páginas do livro até encontrar a indicada no índice. Contém spoiler –>  Li a respeito da pilocarpina e de seus efeitos sobre a visão e outras coisas, que pareciam não ter qualquer relação com o caso. Finalmente cheguei à frase mais significativa: tem sido experimentada com êxito como antídoto para o envenenamento pela atropina. <– Fim do spoiler (Os treze problemas, Nova Fronteira, pág. 84)

Estrutura quimica da pilocarpina

Estrutura química da pilocarpina

Pilocarpina é um alcalóide extraído das folhas da planta jaborandi (Pilocarpus pennatifolius), uma espécie vegetal disponível somente no Brasil. O jaborandi é conhecido há vários séculos pelos índios tupi-guarani que a chamavam de yaborã-di (planta que faz babar) e indicada sempre que se queira aumentar a produção de suor (gripe, edemas ou hidropisia). Esta planta é um arbusto do gênero Pilocarpus, de ocorrência natural em algumas regiões do norte/nordeste do Brasil, especificamente entre o Maranhão e o Piauí, que tem folhas claras podendo chegar até dois metros de altura. Suas folhas estão repletas de pequenas bolsas secretoras que quando esfregadas soltam um cheiro semelhante ao da laranja.

Efeitos colaterais
Redução da acuidade visual sob iluminação deficiente; espasmo ciliar; irritação ocular; congestão vascular conjuntival; cefaléia temporal ou supra-orbitária e indução de miopia, principalmente em pacientes jovens, que iniciaram recentemente a administração.

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Atropina

E no mesmo livro de Medicina, que eu continuei lendo, uma parte desse livro era interessantíssima, fiquei informada dos sintomas de envenenamento pela ptomaína e pela atropina. Não eram muito diferentes entre si. (Os treze problemas, Nova Fronteira, pág. 86)

Estrutura quimica da atropina

Estrutura química da atropina

A atropina é um alcalóide, encontrado na planta Atropa belladonna e outras de sua família. A Atropa belladona (ou erva-moura mortal) fornece principalmente o alcalóide Atropina (dl-hiosciamina). O mesmo alcalóide é encontrado na Datura stramonium, conhecida como estramônio ou figueira-do-inferno, pilrito, ou ainda maçã-do-diabo.

Tem absorção veloz no trato gastrintestinal. Ela também chega a circulação quando for aplicada topicamente na mucosa do corpo. A absorção pela pele íntegra é pequena, embora seja eficiente na região retroauricular (atrás da orelha). O metabolismo hepático é responsável pela eliminação de aproximadamente 50% da dose, enquanto o restante é eliminado inalterado na urina. A atropina atravessa a barreira placentária. A atropina é absorvida rapidamente pelo trato gastrintestinal. Tem meia-vida de cerca de 2 horas.

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Broadmoor

– Ele é um elemento perigoso. Freddy o Camaleão, eis como o apelidavam. Levava uma vida dupla. Metade do tempo agia como um cidadão educado, respeitável e próspero. A outra, ele a dedicava a assaltos e atos de violência. Tenho lá minhas dúvidas de que Broadmoor não seja o lugar mais indicado para ele. Uma espécie de mania o levava a cometer crimes de tempos em tempos. (O Mistério de Sittaford, Ed. Record, pág. 174)

Broadmoor Hospital, Berkshire

Broadmoor Hospital, Berkshire

O hospital psiquiátrico de alta segurança localizado na cidade de Crowthorne, condado de Berkshire, foi fundado em 1863 com o nome Broadmoor Asylum for the Criminally Insane (Broadmoor Asilo para os Criminalmente Insanos). Com o avanço das pesquisas médicas e psiquiátricas, passou a chamar apenas Broadmoor Hospital. Seu padrão de segurança é categoria B (não é de segurança máxima mas deve-se dificultar a fuga de prisioneiros) e seus 260 internos são todos homens, embora aceitasse mulheres até setembro de 2007.

Todos os domingos, às 10h da manhã, a sirene de alarme é disparada num exercício de teste. Escolas locais têm procedmentos-padrão a serem executados caso o alarme soe, avisando que um dos internos fugiu. Este alarme é o mesmo utilizado na Segunda Guerra Mundial para alertar contra os raids alemães. A última fuga aconteceu em 1991: o estuprador de crianças James Saunders foi recapturado dois dias depois. Um esfaqueamento em 1993 acionou a sirene de alerta mas não houve fuga.

V. notícia sobre a sirene de Broadmoor no site da BBC.

Um dos prisioneiros célebres de Broadmoor foi Graham Frederick Young, sentenciado a 15 anos no hospital após envenenar a madrasta, pai, irmã e um colega de escola. Ele adquiriu ainda mais experiência em química durante sua perrmanência, estudando e fazendo experimentos com funcionários e colegas – em sua ficha não havia informações sobre seu crime anterior. Ao ser liberado após ter cumprido apenas nove anos de sua pena e considerado “totalmente reabilitado”,  na década de 70 envenenou dezenas de pessoas. Foi preso novamente graças a um investigador que percebeu as semelhanças entre as vítimas de Young e os sintomas de envenenamento por tálio descritos no lvro O Cavalo Amarelo, de Agatha Christie.

V. ficha de Graham Frederick Young no site TruTV.

Ricina

“Caro Sr. Blunt:
Tudo leva a crer que o veneno empregado foi ricina, toxalbumina vegetal tremendamente forte. Mantenha segredo por enquanto, por favor.” (Sócios no Crime, Ed. Record, 1987, pág. 134)

Mamona (Ricinus communis L.)

Eu não sei quanto a vocês, mas brinquei muito com a matéria-prima da ricina quando era criança: usava os frutos do pé de mamona do quintal de casa como munição de estilingue. A casca de espinhos macios não chegava a machucar o alvo (geralmente meu irmão mais novo), apenas o suficiente para arder. Hoje em dia a mamona serve a propósitos mais nobres como a fabricação de biodiesel, mas naquela época minha mãe não sabia do potencial mortífero da sementinha, caso contrário meu imão teria passado por uma infância talvez mais dolorida (eu teria que apelar para outras sementes – de abacate, por exemplo).

Por sorte não é tão fácil assim ficar exposto à ricina: esta toxina é obtida da pasta feita com a semente da mamona, subproduto do óleo de rícino. O oléo de rícino não é venenoso e vem sendo usado como laxante desde a época do antigo Egito. O óleo não é venenoso porque a ricina não é lipossolúvel.

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Ptomaína

O médico inclinou-se para Tuppence.
– Diante das circunstâncias, não há necessidade de esconder nada. A não ser pelo episódio do chocolate, acredito que estas mortes tenham sido provocadas por ptomaína, mas do tipo incomum, mais virulento. Constatei inflamação gastrointestinal e hemorragia, assim, estou levando a pasta de figo para ser analisada. (Sócios no Crime, Ed. Record, 1987, pág. 129)

Definição do dicionário KingHost:

PTOMAÍNA s.f. Nome de vários compostos químicos relacionados com o amoníaco. — Formam-se como produtos residuais da ação de bactérias que causam a decomposição de matéria orgânica vegetal ou animal. Têm certa semelhança com os alcalóides encontrados em vegetais e animais venenosos.

Definição do dicionário Houaiss:

1 putrefação cadavérica
2 a parte putrefata de um organismo animal
3 infecção que resulta de contato com essa putrefação
4 Rubrica: bioquímica.
cada uma das diversas moléculas orgânicas ricas em nitrogênio e formadas em conseqüência da decomposição de matéria orgânica de origem animal

De qualquer forma, é uma palavra que não ouvimos/vemos mais atualmente porque não existe mais o que se conhecia por “envenenamento por ptomaína” na época de Agatha Christie. Com as novas descobertas da medicina e da ciência mudou-se a nomenclatura: hoje em dia se diz “intoxicação alimentar por bactérias”, geralmente do tipo salmonela ou Campylobacter, campo do Dr. Bactéria.

A ptomaína (do grego ptōma, corpo caído, cadáver) agora denomina substâncias químicas formadas no processo de decomposição de tecidos animais e vegetais.