Dez Motivos Para Amar Agatha Christie, por Ana Paula Laux

Video publicado em 17.01.2017.

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Agatha Christie 120 Anos | Death on the Nile / Morte no Nilo

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– Vaidade? Como motivo para um assassinato? – perguntou a Sra. Allerton, duvidosa.
– Os motivos dos crimes são, às vezes, muito triviais, Madame.
– Quais os mas frequentes?
– O dinheiro. Isto é, para obtê-lo mais rapidamente. Em seguida, a vingança… o amor, e a filantropia.
– Monsieur Poirot! [Agatha Christie, Morte no Nilo, trad. Newton Goldman. Rio de Janeiro: Altaya, n/d]

A terceira regra de S. S. Van Dine para escrever histórias de detetives proclama que “Não deve haver interesse amoroso no entrecho. A questão a ser deslindada é a de levar o criminoso ao tribunal e não a de levar um casal ao altar.”

Agatha Christie obedece a maioria das vinte regras estabelecidas por Van Dine em 1928 na maior parte das vezes, mas a terceira regra é a que ela quebra mais constantemente desde O Misterioso Caso de Styles, seu primeiro romance policial. Hercule Poirot, o detetive belga que ela criou, é um solteirão, sim, porém um solteirão pronto a reunir maridos e esposas afastados pela suspeita ou mesmo unir jovens enamorados no decorrer das investigações. Até o casamento do Capitão Arthur Hastings foi arranjado por Poirot em Assassinato no Campo de Golfe!

A escritora inglesa não aprovava o amor excessivo, entretanto. Manifestações muito efusivas de afeto eram creditadas a personagens de sangue latino e devidamente ridicularizadas, e mais de uma vez ela expôs a condição trágica da mulher que idolatra o marido, quase sempre sem retribuição. Para ela, um homem que seja o alvo desse amor se sente aprisionado, sufocado. “Um que ama, um que se deixa ser amado”, como diz Poirot em Morte no Nilo [“Un qui aime et un qui se laisse aimer“].

Neste livro publicado pela primeira vez em 1937 Christie quebrou ainda a regra n. 9: “Cada história deve ter unicamente um detetive”. Além de Hercule Porot, o Coronel Johhny Race do Serviço Secreto Britânico participa das investigações. Essa é a segunda vez que se encontram, a primeira foi em Cartas na Mesa [em que também participaram Ariadne Oliver e o Superintendente Battle].

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Indicando livro(s) de Agatha (ou não)

O Natal de Poirot

O Natal de Poirot

Depois de mais de 50 livros lidos e [por enquanto apenas] 16 nesta nossa tarefa blogueira de tentar ler tudo de novo na ordem em que foram originalmente lançados [ou quase], me deparei com um que nunca tinha lido e passei a considerar um dos melhores livros de Dame Agatha: “O Natal de Poirot”. Desafio os leitores de nosso blog “A Casa Torta” a descobrirem o assassino: um dos mais difíceis.

Outra boa indicação (o primeiro que li na vida): “Um Gato Entre os Pombos”, outro de resolução quase impossível e uma das melhores histórias de Agatha. Isso sem falar em clássicos como “O Assassinato de Roger Ackroyd” (mas este é tão clássico que muita gente acaba revelando o final inadvertidamente — cuidado, portanto, com os spoilers da rede e os linguarudos da vida real), “O Inimigo Secreto” (um de meus preferidos, o primeiro caso de Tommy e Tuppence Beresford), além dos mais populares “O Caso dos Dez Negrinhos”, “Assassinato no Expresso do Oriente” e “Morte No Nilo”, entre tantos outros.

A propósito… Quantos livros (Agatha ou não) você já leu este mês [livros de verdade, em papel, comprados seja novos ou em sebos] ? Deixe suas respostas nos comentários e também suas boas indicações para nossos leitores.

O que é romance policial – Sandra Reimão [3/3]

Capa do livro

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Continuação do post O que é romance policial – Sandra Reimão [2/3].

Agatha Christie foi, sem dúvida, um dos autores de romance enigma a abandonar mais radicalmente o campo do verossímil. Nessa questão, podemos ver, entre outros “Um Destino Ignorado”, narrativa em que os principais cientistas do mundo ocidental são seqüestrados por Contém spolier –> um homem que os mantém em um recinto, ocultado por um sistema de portas blindadas invisíveis a olho nu, numa colônia de leprosos. A coisa toda só consegue ser provada pelo depoimento de um desses cientistas, que colore (por pigmentação) a sua pele e faz e faz inchar seus lábios (com injeção de parafina) e assim se faz passar por criado marroquino e tem contato com autoridades visitantes. Isso tudo acompanhado de pérolas falsas numeradas, luvas que deixam marcas fosforescentes etc. <– Fim dos spoilers

Retornando às obras de Agatha Christie em que Poirot aparece como personagem central, é interessante perceber que Agatha Christie mantém a tradição da presença dos jogos intertextuais.

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O que é romance policial – Sandra Reimão [2/3]

Capa do livro

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Continuação do post O que é romance policial – Sandra Reimão [1/3].

Vamos ver agora um pouco os textos que têm Poirot como protagonista e, especialmente, aqueles em que o Capitão Hastings também aparece, enquanto narrador. Hercule Poirot surge em “O Misterioso Caso Styles”, em 1920, e com ele surge também o Capitão Hastings, seu primeiro biógrafo.

Hastings, assim como Watson e o narrador anônimo das aventuras de Dupin, tornou-se narrador a pedidos. Como Dr. Watson, Capitão Hastings “tinha voltado da frente de batalha, em conseqüência de graves ferimentos”, e, ainda como Watson, depois da convalescença estava de licença e desocupado “já que não tinha parentes ou amigos” a quem visitar, e é nessas condições que Hastings reencontra Hercule Poirot, a quem já conhecera anteriormente na Bélgica. E se Watson encontra Holmes porque este procurava com quem partilhar seus aposentos, é só no segundo volume da dupla Poirot-Hastings que esses vão repartir as acomodações. Outra diferença Hastings-Watson é que se Watson era médico de profissão, Hastings alimentava o desejo de se tornar detetive.

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